quarta-feira, novembro 17

Expedição Cuba - PaRtE 5

Camilo Cienfuegos e Che - museo de la Revolución -Havana
... Os dias em Cuba foram assim: cheios, contrastantes, desafiadores e culturais...
A oportunidade de encarar o desconhecido e, preparar-se para uma viagem  que ao qual, proporcionará um "caminho sem volta" é como abrir pela segunda vez, aqueles velhos livros de história.  Aqueles mesmos livros que achávamos exaustivos em demasia. Aqueles livros repletos de datas, fatos e acontecimentos.  Livros que não faziam sentindo algum diante de uma sala de aula com 45 cadeiras cheias. Cheias de mentes vazias e ouriçadas pela puberdade. E pela segunda vez abro os livros e, deparo-me com a vida! Sim a história pulsa como uma única molécula no planeta. Quero ir atrás desse pulsar... Quero fechar os olhos e sentir minha alma latejando de vida e, rodeada de história...
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Mais um "desayuno" e cada vez mais "solto", menos tímido. Já não sentia mais a solidão. Além da cadeira vazia que me acompanhava com uma xícara virada pra baixo e um guardanapo dobrado de forma impecável, tive também companhia de pessoas. Um casal árabe senta-se a duas mesas da minha, um casal alemão pede omeletes como o meu, recheado de tomate e cebola, outras pessoas que se sentavam sempre no mesmo lugar. Involuntariamente eu também me sentava no mesmo lugar todos os dias. Aquilo já fazia parte de mim, éramos uma família: eu, a cadeira e as pessoas. Já acordava com aquele sentimento de revê-los...
Fui então ao museu - isso requer tempo. Não que eu seja detalhista ou uma chata que só pensa em quadros, livros e esculturas fixados dentro de um espaço velho fedendo a mofo. Não mesmo. Já viajei a lugares que nem se quer passava em frente a um museu ou algo parecido. E também, já fui a espaços culturais que não fediam a mofo e não tomavam meu tempo.
Mas é preciso. Sabia que aquele de Cuba seria diferente. O "Museo de la revolución" mostra quadros, livros, fotos, roupas e acessórios de um história perseguida pelo falso moralismo e detonada subliminarmente por uma sociedade viciada em revolução. "52 anos atrás, os irmãos Castro, Camilo e Che Guevara revolucionaram a cabeça de um povo, a grande massa." Essa gente quer mudança, talvez se Lula e Dilma estivessem por lá o "bolsa família" já não surtiria efeito. Acreditem, essas pessoas não querem "limosna"(esmola), elas querem uma outra revolução em pleno séc XXI. Muitos cubanos olham pra você como quem diz: somos iguais, mas por quê sou diferente?  Dai que conversei com um jovem cubano: "la verdad joven, es que tu piensas que nosotros somos todos iguales y tenemos las mismas oportunidades. Y, qué sé yo! Pero no. Tengo amigos que no tienen trabajo ni estudios. Hay paises que no gozan de educacion ni sanidad. Tu tienes poco, pero lo tiene todo."
 Não preciso traduzir esta minha frase , está bem claro que, aos olhos deles, somos perfeitos. Mas não os culpo, porque eles só têm contato com os turistas e alguns idolatram os "Yankees" - clique aqui. (eita viagem contrastante essa)
Com o Che no museu

Outros museus, poucos museus, mas há! Arte moderna, folclores, de música, até do chocolate... Mas falarei apenas de mais um. Não vim aqui pra passar por intelectual... Então cansei de museus, são mais legais ao vivo! Quero falar que o museu de "run havana club" cheira "pinga boa"... Vale a pena!
Além de museu da bebida mais popular de Cuba, aproveitei pra ir numa fábrica de Rum. Provei todos os estilos, sai de lá com a bochecha dormente.
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Em Havana, das poucas farmácias que encontrei, existia uma "pharmácia" de manipulação. Os frascos são aqueles tradicionais de porcelana, as vidraças onduladas de uma vitrine com poucos remédios para comercialização. Gente quieta dentro, parecia respeitar um patrimônio. Uma antiguidade. Não me lembro de ter visto remédios, mas vi muitos instrumentos, algodão e potes clássicos, como uma cristaleira de casa de vó. (Adorei essa foto porque o vendedor da farmácia estava resfriado, ahahah)
Para muitos, a cidade fede! Para mim é a mais pura sensação de liberdade! O cheiro de tabaco penetrava na minha roupa, mais que isso, aquilo me dava vontade de experimentar o maior prazer cubano. O charuto.

Conheci o José, um cubano velho, que como todos os cubanos, aprecia um bom charuto. Ele aprendeu sozinho a lapidar este "diamante raro". José entrou para o livros dos recordes por ter feito o maior charuto do mundo. A coisa mais inútil que já vi, esse charuto fica lá, por cima de nossas cabeças, sem ao menos ser tocados. Isso é que chamo de "desperdício voluntário." Mas José é um "majo" cubano, conversamos e de repente ele se levanta, sem muitas palavras, oferece-me sua cadeira. Eu sentei. Ele faz um gesto com a mão (como quem diz: anda, faz um. Enrola um charuto ai). Fiz dois movimentos, de ida e volta com as mãos diante de um rolo de folhas, aquilo bastou para que meus dedos se impregnassem. Definitivamente, adoro cheiro de fumo...
... E pela cidade, mais fumo. Sem dúvida, mais cubanos!...
Momento prazeroso é aquele que, você encontra paz em alguma coisa. Fui a uma lojinha ao qual era impossível não admirar quadros coloridos. Sem dúvida tive dificuldade pra escolher. Enquanto estava presa a minha indecisão, o vendedor comia sua quentinha ao meu lado, tinha peito de frango, batata e uma farinha. Me deu fome... Fome de comer um pedacinho daquele lugar. Comi. Comi com muita vontade. Aquele quadro me alimentou. Hoje ainda enrolado no quanto do meu quarto. Está lá, esperando uma nova contemplação. (fiquei tão feliz por um quadro assinado. Feito pelas mãos de um cubano...)
Muita coisa e poucos dias... Sim, mesmo por um mês inteiro de viagem, seria pouco, muito pouco. É uma embriaguez rápida. Quando se vê, já está curada de uma pequena ressaca....
As caminhadas continuaram. O farol foi uma parada obrigatória , desde dia até a noite. Têm lugares que você se sente na obrigação de voltar. O farol foi um deles (já falo em outro post)...
Muitas coisas vividas e sentidas. E é assim que vou levando. E é assim que me levam... Um país envolvente... a cada esquina uma foto, a cada esquina uma vibração!!! Até amigos com mais Cuba!

3 comentários:

Leo Mandoki, Jr. disse...

sabe o q eu descobri? q vc prepara a viagem depois da viagem acontecer. Vc é um viajante ao contrário. Ou melhor, vc prepara a viagem para o viajante seguinte.
Hj tbm descobri que a palavra da língua portuguesa «saudade» é mto limitada. Há ausências que em mto ultrapassam o significado da palavra saudade. Não existe palavra em português para determinadas ausências.
um beijo de quem te guarda
M.

Fabio Rocha disse...

Essa foto do charuto ficou ótima. :) bj

André disse...

Olá, Tatiana,
desta vez fiz como vc faz com as minhas poesias e li o artigo de cima prá baixo e de baixo prá cima. Aqui funcionou, pelo menos!

Seus relatos são saborosos, realmente. E então, vc já se tornou uma "maja" brasileira? ;-) acho sempre curioso o destino de uma tal folha, das formas e texturas que ela toma depois de colhida, até o produto final que ela se torna. Talvez seja das últimas coisas ainda manufaturadas desta nossa civilização...

Parabéns à pessoa que fez a foto, o efeito é muito interessante.

Um abraço,

André